Páginas

- #

Eu precisei de uma noite somente, uma noite como esta para dilacerar-me. Talvez eu soubesse de tais desejos malignos que andavam escondidos. Por algumas semanas eu tenho permanecido muito neste "Talvez" inconfundível. Não compreendo o porque desta incerteza fútil que insiste em andar ao meu lado. Eu sei que parece um tanto imbecil se importar com tantas indecisões, afinal, nós, seres humanos, somos cheios delas. Porém, eu tento ter menos insegurança para com as coisas. Acordei a um momento atrás, assustada, nada normal para uma segunda-feira. - Não vou aprofundar-me no aspecto sonhoEu precisaria de uma tamanha complexidade que não se encontra em mim agora. Estou com medo, não digo sozinha. Não estou solitária, e muito menos sendo mal amada. Também não me encontro rejeitada por este mundo, apesar de eu me encontrar longe dele por vários minutos, brisando em dimensões surreais. São estas dimensões que fazem de mim o que sou. Uma pessoa por tantas vezes fria, recoberta por esta camada falsa e espectral. Antes eu agradecia muito a este outro lado da minha realidade. Hoje, eu já não sei o que pensar sobre estas feridas presentes em lugares terminantemente não vistos. Vou dizer a elas para tentarem uma cicatrização contínua, uma vez mais. Só para eu poder dormir em paz. 

- Tears ' ♥

         As conexões concebidas através do tempo não se desmancham simplesmente. Eu gostaria que elas se difundissem através das lágrimas que ainda escorrem por entre meu rosto. Estas lágrimas que insistem em cair. Confesso, não é tanto minha culpa, não mais. Talvez as dores estejam tentando se comunicar, e eu não queira escutá-las. Mas são tantas questões sendo formuladas na minha mente, tantas sem respostas, que prefiro jogar toda essa confusão de lado e continuar amando. 
                   Embora o amor traga lágrimas, estas são imparciais comparadas com aquelas trazidas pelo sofrimento de um passado terrível. Para isso, precisariam conhecer a minha história, só que não quero contar a mais ninguém. Apenas a ela, e isto basta. Não sinto uma necessidade forte em sair declarando-a por entre palavras abestadas às 20:12. Estou aqui, escrevendo, somente por escrever, para mostrar algum afeto a estas palavras que gostam de um companheirismo amigável. Não estou tentando ser fortemente objetiva. Não, este não é meu interesse. Só que também não desejo cair nas tentações destes cortes. Metaforicamente dizendo. Vou terminar esta noite lembrando-me do meu amor, sentindo-a um pouco mais. Um pouco do que resta deste final de semana cruel e massacrante. Sim, também preciso rir. Lágrimas viraram pó. Por hoje. Apenas. 
  

- 2

Gandhi dizia que tudo o que você fizer na sua vida será insignificante. Mas que é muito importante fazer. Bom, concordo com a primeira parte. Falando nele, lembro da minha fixação pelo número 2, 22, 222... ' # Gandhi, aos 22 tinha três filhos. Mozart, trinta sinfonias e Buddy Holly estava morto.
O número 2 cria um perfil para mim, um perfil idealizado.
                Observo atentamente as coisas a minha volta com atenção. E embora eu movimente em meu cotidiano, nunca estou inteiramente aqui. Minha mente esta ligada em outro lugar. Não acredito que a vida se resuma em trabalhar, ganhar dinheiro, namorar, casar e constituir família. Tudo tem um sentido maior, e busco filosofias que respondem estas questões existenciais, como: Porque estamos aqui? Qual meu lugar no universo?
                Sinto-me as vezes em uma melancolia profunda. Vejo pessoas brigando por coisas mesquinhas e sei que a vida não deveria se reduzir a isto, o ser humano poderia viver de uma maneira mais digna. Ou não. Não gosto de ser enquadrada em rótulos, meus pensamentos não se encaixam nos parâmetros sociais. Meu foco esta nos valores subjetivos e acabo muitas vezes não dando importância as coisas, ate mesmo pessoas. Mas chega de falar de mim.
                Volto aqui ao numero 22. O número que para mim retrata a decisão. O simples sim ou não de determinadas situações pelos quais eu convivo. Não gosto do meio a meio.  Não sei, é como se este numero fosse o ápice, de uma união do espírito e da matéria, independente e auto-suficiente. Ele que é meu número de chamada, ele que fez-me ganhar dois bingos, e um ovo da páscoa em sorteio apesar de eu não comer chocolate. Ele foi o número de uma questão que eu acertei, que eu necessitava acertar para passar para segunda fase na Olimpíada. O número 22 foi a quantidade de cartas que recebi da minha melhor amiga, que nunca mais pude ver. Este foi o número que meu avó me deu de presente antes de morrer... Enfim, 2 é o meu número. Depois de tudo isto, não duvido. 

Again -

O meu sonho, como me mostra os seres diferentes do que são. O mistério? O olhar... todo o universo esta nele, já que ele o vê, já que ele o reflete. Contém o universo, as coisas e os seres, as florestas e os oceanos... e nele há ainda algo a mais, a alma, há o homem que pensa, o homem que ama, o homem que ri, o homem que sofre! sim, a alma tem a cor do olhar.
       O olhar de quem nos ama, pense nele! Bebe a vida aparente para alimentar o pensamento. Beber o mundo, a cor, o movimento, os livros, os quadros, tudo o que é belo e o que é feio, e transforma tudo isso em idéias. E quando nos olha, dá-nos a sensação de uma felicidade que não é desta terra. Faz-nos pressentir o que sempre ignoramos, faz-os compreender que as realidades dos nossos sonhos não passam de miseráveis restos. 

07:21

Porque somente as flores cheiram tão bem, as grandes flores deslumbrantes ou pálidas, cujos tons, cujas nuances agitam o meu coração e perturbam os meus olhos? São tão belas, de estruturas tão finas, variadas e sensuais, entre-abertas como órgãos, mais tentadoras do que bocas e côncavas com lábios curvados, dentados, carnudos, pulverizados por uma semente de vida que, em casa uma, engendra um perfume diferente.
        São as únicas no mundo que se reproduzem sozinhas, sem nódoa para a sua inviolável raça, exalando ao redor o incenso divino do seu amor, o suor aromático de suas caricias, a essência de seus corpos ornados com todas as graças, elegâncias e formas, que têm o esplendor de todas as colorações e a sedução inebriante de todos os perfumes... 

The Lovely Bones





Lembro de quando eu era bem pequena. Tão pequena que mal dava para olhar por cima da mesa. Havia um globo de neve. E eu me lembro do pinguim que vivia dentro do globo. Ele estava sozinho lá dentro e eu ficava preocupada. 

Lembro de quando ganhei uma câmera de aniversário. Adorava como as fotos capturavam os momentos antes que acabassem. Era isso que eu queria ser: uma fotografa da vida selvagem. Imaginava que quando fosse maior, observaria elefantes e rinocerontes. Mas por enquanto me contentava com a Grace Tarking. 

São estranhas as lembranças que guardamos. Lembro de ir com o papai no sumidouro da fazenda dos Connors. Era fascinante como a terra podia engolir as coisas. E me lembro da menina que morava lá, Ruth Connors. O pessoa da nossa escola dizia que ela era esquisita. Mas agora sei que ela via coisas que os outros não viam. 

E me lembro da pior coisa que aconteceu a nossa família.O dia em que meu irmão caçula parou de respirar. E me lembro do brilho nos olhos do meu pai, o alivio. Não eramos essas pessoas sem sorte, para quem acontecem coisas ruins sem motivo nenhum.

A vovó previu que eu teria uma vida longa e feliz por salvar meu irmão. E como sempre a vovó Lynn estava errada. 

Meu sobrenome é Salmon, salmão, igual ao peixe. Meu nome, Susie. Tinha 14 anos, quando fui assassinada, em 6 de dezembro de 1973. Foi antes de colocarem fotos de crianças desaparecidas em caixas de leite e nos noticiários. Quando as pessoas acreditavam que essas coisas não aconteciam. 

Eu não estava segura, um homem do meu bairro estava me observando. Se eu não tivesse desatenta teria percebido que havia algo errado, porque esse tipo de coisa me dá arrepios. Mas estava muito ocupada pensando nos cílios enormes do Ray Singh. Tinha contado cada um deles na biblioteca, enquanto ele lia Abelardo e Heloisa, a mais seria tragédia de amor que já existiu. 

Não foi o senhor O'Dwyer, apesar dele parecer meio suspeito. O senhor O'Dwyer nunca machucou ninguém. A própria filha do senhor O'Dwyer morreu um ano e meio antes de mim. Ela tinha leucemia. Mas nunca a vi no meu céu. 

Meu assassino era um homem do nosso bairro. Tirei uma foto dele falando com meus pais sobre as flores do canteiro. Ia fotografar os arbustos e ele entrou. Ele apareceu do nada e estragou a foto. Ele estragou muitas coisas. 

Eu estava deslizando. Era isso que eu sentia. A vida estava me deixando. Mas não estava com medo. Então lembrei, que havia uma coisa que eu tinha que fazer. Um lugar em que eu tinha que estar.

A Holly disse que havia um céu maior que tudo que conhecíamos. Onde não havia milharal, nem lembranças. Nem túmulo. Mas eu ainda não estava olhando além. Eu ainda estava olhando para trás. 

Meu assassino começou a se sentir seguro. Ele sabia que as pessoas queriam prosseguir. Elas precisavam esquecer. Ele adorou esse pensamento. Ninguém estava olhando pra ele.Mas havia uma coisa que meu assassino não entendia. Ele não entendia o quanto um pai podia amar sua filha. Eu ainda estava com ele.

Eu não estava perdida, nem congelada, nem tinha partido. Eu estava viva, eu estava viva no meu mundo perfeito. 

Eu estava no horizonte azul, entre o céu e a terra. Os dias não mudavam. E toda noite eu tinha o mesmo sonho. O cheiro da terra úmida. O grito que ninguém ouvia. O som do meu coração batendo como um martelo debaixo da roupa. E depois os ouvia chamando. As vozes dos mortos. Eu queria segui-las.Para achar uma saída. Mas eu acabava sempre voltando para a mesma porta. E eu estava com medo. Sabia que se eu fosse lá, nunca mais sairia. 

O meu assassino podia reviver um momento por muito tempo. E ficava se alimentando da mesma lembrança. Ele era um animal, sem rosto. Infinito. Mas depois ele ia sentir, o vazio voltando. E a necessidade surgiria dentro dele de novo. 

Quando chegou o verão, ele percebeu que os namorados entravam no milharal. E começou a segui-los e a observar. 

Minha mãe foi o mais longe que conseguiu. Ela achou um trabalho em um pequeno pomar em Santa Rosa. Era um trabalho pesado, mas ela não se importava. Se alguém perguntava, ela dizia que tinha dois filhos.

E a Lindsey, que sempre disse que não acreditava em amor. Acabou encontrando-o.E aí estava, o momento que eu nunca teria. Minha irmã passou na minha frente. Ela estava crescendo. 

Eu ia sempre observar o Ray. Eu ficava no ar, em volta dele. Eu estava nas manhãs frias que ele passava com Ruth Connors. Aquela garota estranha e sobrenatural que aceitou facilmente a presença dos mortos entre os vivos. E, as vezes, o Ray pensava em mim. Mas ele começou a questionar, se já era hora de por essa lembrança de lado. Talvez fosse hora de me deixar partir. 

Um assassinato muda tudo. Quando era viva, nunca odiei ninguém. Mas agora o ódio era tudo que eu tinha. 

Ali eu soube que ele nunca desistiria de mim. Ele nunca me veria como uma morta. Eu era a filha dele. E ele era meu pai. E ele tinha me amado o máximo que podia. Eu tinha que deixa-lo ir. 

Sophie Cichetti. Pensilvânia. 1960. A proprietária da casa onde ele morou.
Jackie Meyer. Delaware. 1967. Tinha acabado de fazer 13 anos. Seu corpo foi achado numa vala ao lado da estrada.
Leah Fox. Delaware. 1969. Já estava morta quando ele afundou seu corpo no rio.
Lana Johnson. 1960. Condado de Bucks, Pensilvânia. Ele a atraiu ate uma cabana que ele havia construído.Ela foi a mais jovem, tinha 6 anos.
Flora Hernandez. Delaware. 1963. Ele só queria tocá-la, mas ela gritou. 
Denise Lee Ang. Connecticut. 1961. 13 anos. Estava esperando o pai fechar a loja quando desapareceu. Denise Lee Ang, que, ás vezes, gostava de ser chamado de Holly. 
Susie Salmon. 14 anos. Norristown, Pensilvânia. 1973. Assassinada num quartinho que ele construiu debaixo da terra. 

Eram esses os restos angelicais que tinham nascido na minha ausência. As conexões, as vezes, tênues, as vezes criadas com muito custo, mas com frequência magnificas que aconteceram depois de eu morrer. E eu comecei a ver as coisas de um jeito, que me permitia conceber o mundo sem mim. 

Quando minha mãe entrou no meu quarto, percebi que esse tempo todo eu estava esperando por ela. Eu esperei muito. Estava com medo que ela não viesse. 

       Ninguém percebe quando a gente vai embora. Quero dizer, o momento quando realmente decidimos partir. No máximo, podem sentir um sussurro ou a onde de um sussurro indo pra baixo. 

Meu sobrenome é Salmon, Salmão, igual ao peixe. Meu nome, Susie. Tinha 14 anos quando fui assassinada, em 6 de dezembro de 1973. Eu estive aqui por um momento e depois parti.  

     Desejo a vocês, uma vida longa e feliz.  

     

Pensamento rápido -


Não posso dizer que ainda não sofro. E estou cansada de me ver repetindo esta mesma frase. Eu queria poder mudá-la, queria poder mudar estes pensamentos angustiantes que me atormentam em minhas manhãs sem dormir. São poucas as pessoas que podem me entender, são poucas as pessoas que se sentem realmente sozinhas, sem ninguém por elas. O ruim de sermos assim? Quando nos apaixonamos, caímos totalmente dentro daquele pensamento imbecil que toma conta. Nós sentimos que estamos amando. Mas no fim, terminamos chorando por ficarmos em duvidas sobre o pensamento da outra pessoa. Eu já disse, a Day é desprezível, calculista e perfeccionista. Mas no fundo, ela e mais um monte de pessoas sabem que seu coração é frágil. E isso, de certa forma, é assustador pra ela.  
Layout por Maryana Sales - Tecnologia Blogger